Manual Obrigatório



Aqui fica uma das muitas crónicas o Miguel Sousa Tavares (MST) no jornal "A Bola":


MANUAL DE CONDUTA PARA JOGADORES DO FCPORTO

Agora, que estamos naquela época do ano em que desaguam no Porto levas de novos jogadores de futebol destinados ao FCP— quase todos estrangeiros, sul-americanos e imberbes — deixo-lhes aqui alguns conselhos de comportamento que, se eu mandasse, lhes faria entregar no aeroporto:


- Livre-se de chegar ao FCP a pensar ou a dizer que já está a almejar mais altos voos (como ainda ontem vi o Leandro Lima — que nem sequer ainda chegou — a afirmar). Primeiro, porque os Chelsea, Manchester United e Barcelona não compram todos os jogadores bons do planeta, mas apenas um número restrito dos verdadeiramente excepcionais. Segundo, porque, ao chegar ao FCP, você já está num grande da Europa. É verdade que há, pelo menos, uma dúzia de clubes maiores na Europa a nível financeiro, mas não há sequer uma dúzia que lhe dê as condições e o prestígio que o FCP lhe pode dar.

- O FCP foi 19 vezes campeão de Portugal, duas vezes campeão da Europa e duas vezes campeão do Mundo. Você ainda não foi nada. É uma honra para si vestir esta camisola e estar ao serviço deste clube. Comece pois, por ser humilde, se quiser vir a ser verdadeiramente grande.

- O FCP tem mais de cem anos de história: ainda o seu avô não tinha nascido e já as cores azul e branca (homenagem à antiga e lindíssima bandeira nacional) jogavam futebol. Visite a sala de troféus, fale com os funcionários mais antigos, com velhas glórias do clube, com adeptos de várias gerações. Aprenda a história do clube para aprender a respeitá-lo.

- Como todos os clubes, também o FCP nasceu e vive graças à dedicação dos seus sócios e adeptos. Nunca confunda quem lhe assina os cheques com quem lhe paga: o seu patrão é o FC Porto e o FC Porto é dos seus sócios. É a eles, antes de mais, que você deve respeito e dedicação — a mesma que eles dão ao clube.

- Desde que foi inaugurado, o Estádio do Dragão tem a mais elevada média de assistências em Portugal. No último campeonato, a média foi de 40.000 espectadores por jogo. Não há muitos clubes no Mundo que se possam gabar disto, não há nenhum em toda a América do Sul. Isso dá-lhe bem a noção do amor ao futebol e da dedicação ao clube dos seus adeptos. E deve dar-lhe também a noção da sua responsabilidade em campo. Nunca esqueça, por exemplo, que o público que paga bilhete e se desloca ao estádio, fá-lo para assistir e vibrar com 90 minutos de futebol, e não apenas com 30, 50 ou 70: se estamos a ganhar por dois ou três a zero, isso não o dispensa nem à equipa de continuar a jogar o melhor que sabe pelo prazer do público.

- Você vai poder jogar no mais bonito estádio do Mundo, vai poder treinar num centro de treinos moderno e impecável onde nada falta, vai estagiar em hotéis de luxo, viajar em autocarro de luxo e 1.º classe de aviões fretados, vai ter técnicos, médicos, enfermeiros, pessoal de apoio ao seu serviço 24 horas por dia: nada o dispensa de não dar o máximo sempre. Devem ser raríssimas as actividades e empresas em todo o Mundo em que alguém disponha das mesmas condições de trabalho que o FCP lhe proporciona. Faça por merecer o privilégio.

- Você faz aquilo de que mais gosta e tem a sorte de poder fazer, profissionalmente, o que milhões de miúdos em todo o Mundo pagariam para poder fazer. Você é principescamente pago para jogar futebol ao serviço de um clube. Não tem desculpas para não encharcar essa camisola, nos treinos e nos jogos.

- Jamais venha com a desculpa de que está cansado porque jogou ao fim-de-semana para o campeonato e a meio da semana para a Liga dos Campeões. Esse é o sonho de qualquer jogador e, se você é bom profissional, tem obrigação de estar preparado para isso e muito mais. Mesmo que oiça essa desculpa ao próprio treinador, não alinhe nela. Os grandes jogadores das grandes equipas sabem que o contrato é claro: são anos de glória e de fortuna, em troca de sacrifícios e trabalho árduo. Para descansar, pode esperar pelos 30 anos. E, se não gosta, pode sempre escolher: há outras profissões de menor desgaste físico, em que se pode fazer noitadas, fumar e beber. Mas têm horários de trabalho de 40 ou mais horas, recebe-se cinquenta ou cem vezes menos e não há multidões a aplaudir o nosso trabalho.

- Hoje, você tem 20 anos e é milionário. Mas a vida não vai ser sempre assim. Se for inteligente, você saberá tirar partido dos seus tempos livres, em lugar de se dedicar ociosamente às três coisas que hoje parecem ocupar em exclusivo a cabeça da maioria dos jogadores de futebol: automóveis de luxo, penteados e tatuagens.

- Em vez disso, procure crescer, aprender, cultivar-se, interessar-se pelas coisas. Além do mais, quanto mais mundo e conhecimentos você adquirir, mais inteligente ficará e hoje o futebol que se joga depende muito da inteligência que os jogadores são capazes de integrar no seu jogo.

- Comece, por exemplo, por se interessar e aprender coisas sobre a cidade do Porto, onde terá de viver nos próximos anos. Descubra a história da cidade que deu nome a Portugal, descubra a sua arte, os seus costumes, os seus restaurantes, os seus monumentos, a história do vinho do Porto, a cultura da sua gente. E o mesmo em relação ao seu novo país de acolhimento. Deixe de lado o estereótipo do jogador que diz que é muito caseiro e que só faz vida treino-casa-estágio. Você tem metade dos dias livres: aproveite-os para fazer qualquer coisa de útil.

- Se realmente quer chegar ao topo, deixe as tardes de volta da Playstation, como se fosse um miúdo de doze anos, e ponha-se a aprender línguas, por exemplo: inglês, espanhol, italiano (e português, claro) vão-lhe dar muito jeito para o futuro, dentro ou fora do futebol.

- Contribua para afastar de vez aquela imagem do jogador de futebol que só sabe falar com os pés. Aprenda a exprimir-se como uma pessoa normal, aprenda a falar com a imprensa e, mesmo quando as perguntas são sempre iguais e desinteressantes, como tantas vezes são, procure dar respostas que tenham algum conteúdo e algum interesse para os adeptos. Se só sabe responder por lugares-comuns e banalidades, mais vale então ficar calado: poupa a sua imagem.

- Quando entrar em campo, pense que faz parte de uma equipa e que está ali para dar a vitória ao seu clube. Lá em cima, na bancada, nós não queremos saber se o seu carro custou 123.000 euros, como um dos três carros do Cristiano Ronaldo; não queremos saber se o seu penteado é ainda mais interessante que o do Miguel Veloso, as suas tatuagens mais sexys que as do Beckham e o seu look ainda mais in que o do Abel Xavier. Nem queremos saber se você, como dizia o Valdano, é capaz de fintar três jogadores dentro de uma cabina telefónica — se depois não dá com a saída. Quando estiver em jogo, deixe de se preocupar consigo próprio: use a inteligência a par do talento, levante a cabeça, olhe para o jogo e faça o que for melhor para a equipa, em cada momento.


Se fizer tudo isto, seja bem-vindo ao FC Porto!

Apesar de algumas vezes não concordar com as ideias deste jornalista, penso que este "manual" está brilhante e deveria, sem dúvida, ser apresentado aos jogadores que chegam ao nosso clube.

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Opinião


ABola.pt

«Nortada
A escolha de Pepe
Por MIGUEL sOUSA TAVARES
1Num mundo perfeito, não haveria selecções nacionais que não fossem compostas integralmente por nacionais nascidos no país ou filhos de pais nascidos no país, e que soubessem perfeitamente cantar o hino, falar a língua e debitar um mínimo de generalidades sobre a história, a geografia e a cultura do país cuja nacionalidade invocassem. Mas, num mundo perfeito, também não haveria tantos emigrantes por necessidade, tanta gente deslocada das suas raízes e da sua terra, apenas para conseguir sobreviver.

Mas também num mundo justo a pátria é onde nos sentimos em casa, onde nos apetece trabalhar, viver, ter filhos, criar outras raízes. Em Portugal e apenas no futebol existem cerca de mil brasileiros a trabalhar. Ao fim de seis anos, segundo a Lei da Nacionalidade, eles auferem o direito de requerer a nacionalidade portuguesa, passando a beneficiar de dupla nacionalidade: a portuguesa, que adquiriram, e a brasileira, que não perderam. Um desses mil jogadores é Pepe, central do FC Porto que, como aqui escrevi na semana passada, é, em minha opinião, o melhor central do mundo actualmente. Porque o Brasil tem muitos e bons jogadores ou porque também na selecção brasileira vigora a lei Scolari de só chamar os que já se conhecem, Pepe nunca mereceu a honra e a justiça de uma chamada ao escrete. Sai a perder o Brasil, pode sair a ganhar Portugal — se a Federação for sensível à firme e reiterada vontade de Pepe em jogar pela Selecção Nacional. A fazer fé em Scolari, a vontade de Pepe é mesmo essa: ou joga pela Selecção portuguesa ou não joga por nenhuma.

Confrontado com o desafio de Pepe, o presidente da federação, Gilberto Madail, esclareceu a sua posição, não esclarecendo nada: por um lado, «é preciso aproveitar as oportunidades de um mercado restrito»; por outro lado, «é preciso manter a identidade da Selecção». Diga-se, em abono do desamparado Madail, que a questão não é fácil de resolver.

Primeiro, há que distinguir dois planos: o da Lei da Nacionalidade e o dos critérios próprios das selecções nacionais. A diferença está em que o primeiro estabelece quem é que é português e o segundo quem é que pode representar Portugal. Juridicamente, quem pode uma coisa pode a outra mas, em termos de imagem, há toda uma diferença: suponhamos que Paul Auster naturalizava-se português — será que o poderíamos considerar representante da literatura portuguesa?

No plano da Lei da Nacionalidade — a nossa — não discuto os critérios da sua aquisição, o que discuto é o estatuto que ela confere. Se alguém decide naturalizar-se português, ou chinês, ou bielorrusso, não acho lógico nem justo que possa simultaneamente manter a nacionalidade de origem: ou se é português ou brasileiro; as duas coisas ao mesmo tempo parece-me um privilégio excessivo e sem justificação.

Mas a verdade é que é com esta Lei da Nacionalidade e outras idênticas, que as nossas Federação Nacionais e de outros países têm de se haver. E aí é que começam as dúvidas e os dilemas: todos nós, obviamente, gostaríamos de nos ver representados por selecções desportivas que não desvirtuassem a sua identidade de representações nacionais. Mais: entre a opção de ganhar menos vezes só com atletas nacionais, ou ganhar mais recorrendo também a atletas naturalizados, eu, pessoalmente, preferiria a primeira. Mas a verdade é que o país inteiro vibrou, por exemplo, com as proezas olímpicas de Francis Obikwelu, que pouco tem de português, para além do facto de nem sequer residir em Portugal. O que vale para o atletismo não vale para o futebol?

Por outro lado, existe este argumento decisivo: se vivemos num mundo progressivamente globalizado, se instituímos, e bem, uma Europa sem fronteiras, que é uma das principais aquisições da nacionalidade e estatuto europeu, e se todos os outros fazem o mesmo, que razão ponderosa nos levaria a constituir excepção? Todos sabemos que a França, que foi campeã do Mundo, não teria mais de três ou quatro jogadores genuinamente franceses; todos vimos a selecção da Suécia (a terra dos vikings altos e loiros) com metade dos jogadores de raça negra, e o mesmo sucede com a selecção inglesa; se a selecção espanhola que esteve na Alemanha jogava com um brasileiro naturalizado a meio-campo e diversas selecções de países do Leste europeu fazem o mesmo, quem somos nós para adoptarmos critérios mais restritivos? Acaso um brasileiro não tem muito mais a ver connosco que com Espanha, Rússia ou Bósnia-Herzegovina?

A questão, todavia, só se nos pôs, nos tempos recentes, com o Deco. E a verdade é que Deco tem demonstrado uma dedicação à Selecção portuguesa muito para além do que seria legítimo esperar. Ao contrário de outros, portugueses de gema, que entram e saem da Selecção ao sabor das suas conveniências pessoais, Deco, mesmo depois de se ter mudado para Espanha, tem estado sempre disponível quando é chamado. Então, pergunta-se: se Deco foi aceite, porque não deverá ser Pepe?

Mas é justamente aqui que as dúvidas se adensam: depois de Deco e Pepe, quem se seguirá? A tentação de abrasileirar a Selecção é terrível e isso implica que, para além de todas as dúvidas e dilemas, se estabeleça um critério e se termine com o casuísmo em que temos vivido. Tem de haver regras que sejam claras, públicas e imutáveis — que se apliquem sempre e em todos os casos e que não variem conforme as situações e as necessidades. Não sei quais devam ser essas regras — penso que devem sair de um debate profundo e de um trabalho de reflexão sério, eventualmente promovido a nível do Governo e para valer para todas as modalidades. Mas há um critério que rejeito logo à partida por me parecer de flagrante oportunismo: o das conveniências das selecções. Ou seja, não se pode aceitar Obikwelu porque era a nossa grande esperança de uma medalha olímpica, nem recusar Pepe porque de momento não temos necessidade premente de centrais.

2O Conselho de Disciplina da Liga viu-se obrigado a vir explicar por que razão, ao contrário do que tem sido sempre a regra, aplicou apenas um jogo de suspensão a Nuno Gomes, expulso com um vermelho directo em Alvalade, depois daquela entrada, quase agressão pura, a Tonel. E a explicação foi extraordinária: porque Nuno Gomes — embora já tivesse visto neste campeonato um vermelho directo no Bessa — não era reincidente, visto que o primeiro fora por palavras ao árbitro e o segundo por entrada sobre um adversário. A inovação (veremos se também vale para outros casos...) é de pasmar: a partir de agora, um vermelho directo vale o mesmo que dois amarelos e só dá origem a dois jogos de suspensão se os motivos forem os mesmos. Assim, um jogador pode ser expulso quatro vezes — uma porque insultou o árbitro, outra porque agrediu um adversário, outra porque fez gestos obscenos para o público, outra porque cortou a bola com a mão na linha de golo — e de todas as vezes levará apenas um jogo de suspensão.

É por estas e outras que eu, ao arrepio daquilo que é a esmagadora maioria das opiniões expressas, sou a favor da proibição dos magistrados no futebol. Porque não dignificam o futebol e muito menos as magistraturas.»

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Opinião


ABola.pt

«FC Porto 2006/2007
Por MIGUEL sOUSA TAVARES
OFC Porto, de Jesualdo Ferreira, esmaga a concorrência: é a única equipa portuguesa que se mantém ao mais alto nível na Europa, depois de uma recuperação brilhante na fase de grupos da Champions; é o líder do Campeonato, com uma vantagem já simpática sobre os seus dois rivais directos; tem o maior número de golos marcados e o menor número de golos sofridos; lidera o troféu do melhor marcador, do melhor jogador do Campeonato e do jogador mais valioso; lidera o Troféu BES e o Troféu Disciplina; é a equipa com maior média de assistências por jogo e talvez a única de que não é possível dizer que deve um único ponto às arbitragens. Melhor, honestamente, era impossível. Parabéns a Jesualdo Ferreira e a todos os que contribuem para o sopro do dragão. De A a Z, eis o dicionário destes quatro meses de triunfo.

ADRIAANSE — A primeira e mais decisiva entrada deste dicionário. A sua saída, antes de disputado qualquer jogo oficial, foi a melhor notícia e a mais importante aquisição nesta temporada. Não era por acaso que todos os anti-portistas elogiavam tanto Adriaanse: a sua irracionalidade, teimosia e arrogância acabariam por desfazer uma grande equipa. Deve estar a roer-se de inveja por constatar que, com a mesmíssima equipa e um sistema de jogo natural, Jesualdo Ferreira pôs o FC Porto a vencer e a marcar golos, uniu a equipa e o balneário, recuperou jogadores banidos e fez as pazes com o público.

ADRIANO — Parece que está de saída para o Sporting Braga, confirmando que nunca seria mais do que um razoável suplente.

ALAN — Inconstante e inseguro, capaz de coisas boas e de trapalhadas sem sentido. Pode fazer melhor.

ANDERSON — Um dos três génios da equipa, o vértice central do triângulo verdadeiramente luxuoso: Pepe, Anderson, Quaresma. É um médio de ataque que só sabe jogar para a frente e em movimento constante. Com ele, não há paragens nem quebras de ritmo — é um carrossel alucinante que põe a cabeça em água aos adversários. Há muito que não via um jogador assim e penso que todos aqueles que, acima de tudo, gostam de ver grande futebol, só podem lamentar aquela entrada de Katsouranis que o retirou da nossa vista durante quatro ou cinco meses. Se voltar igual ao que era, vale seguramente uns 40 milhões de euros — sobretudo, se voltar antes dos decisivos jogos com o Chelsea.

ATITUDE — É o grande plus deste clube e das equipas que o vão representando, ano após ano. Os jogadores do FC Porto são melhores profissionais e têm mais respeito pelo clube e pelos adeptos que quaisquer outros. Vítor Baía é, neste momento, o exemplo: onde estão os vítor baías do Sporting ou do Benfica?

BOSINGWA — Também irregular e inconstante, mas a melhorar claramente. Fez-lhe bem ter finalmente concorrência — a de Fucile. Deveria tentar mais as derivações pelo meio porque é bom em drible e em progressão.

BRUNO ALVES — Em relação a ele e a Postiga, dou a mão à palmatória: nunca pensei que Jesualdo conseguisse transformá-los em bons jogadores. Talvez pelo contágio de Pepe ou pela segurança que as oportunidades de jogar lhe deram, Bruno Alves não tem nada a ver com o jogador da época transacta, que não sabia quando atacar a bola e que a despachava de qualquer maneira. Está a crescer, jogo após jogo.

BRUNO MORAIS — Um só jogo que lhe vi, ainda na pré-temporada, foi o suficiente para entender por que razão Mourinho o contratou. Apesar do azar e das lesões, apesar do renascimento de Postiga, Bruno Morais já deu indicações suficientes de que está ali um grande jogador, pronto a explodir. Que a sorte finalmente o acompanhe!

CAROLINA SALGADO — Não joga pelo FC Porto, mas joga e muito, pelos adversários. Quis, com a sua traição e o seu abjecto panfleto, manchar o trabalho de todos estes jogadores e técnicos, que se batiam no campo enquanto ela se exibia no camarote. Mas acredito que, no fim, a verdade virá ao de cima, embora a desonra e os danos já ninguém os apague.

CECH — Um bom jogador, não um extraordinário jogador. Ataca bem, defende pior. Mas tem terreno e idade para progredir.

CSKA MOSCOVO — A vitória decisiva, a demonstração que faltava de que este FC Porto é herdeiro dos grandes FC Porto que honraram este país e o nosso futebol. Por muito que isso custe a engolir a muitos.

DIEGO — Há um que saiu e bem, em minha opinião, e outro que vai entrar. O que saiu era o oposto de Anderson: travava o jogo, perdia-se em rodriguinhos inúteis e não sabia onde ficava a baliza do adversário.

DIOGO VALENTE — Parece que vai ser emprestado, mas gostaria de o ter visto mais vezes em jogo. Não deixa de ser impressionante pensar que, das sete aquisições feitas pelo FC Porto esta época — Paulo Ribeiro, Ezequias, João Paulo, Tarik Sektoui, Diogo Valente, Vieirinha (este promovido) e Fucile — só o último é regularmente utilizado.

DÍVIDAS DA SAD — Trinta milhões de euros declarados no último exercício: um descalabro que, fatalmente, terá de ser remediado, mais tarde ou mais cedo, com a venda dos anéis. Esta febre de comprar jogadores que não servem para nada a não ser para serem emprestados explica muita coisa. Só falta explicar para que os compram.

ESTÁDIO DO DRAGÃO — O mais bonito estádio de futebol que alguma vez vi. Uma das melhores obras de sempre da arquitectura portuguesa. E é sempre a primeira vez em cada regresso a casa.

EZEQUIAS — Quem o comprou que explique.

FUCILE — Ah, uma na mouche! Grande miúdo, grande personalidade, grande coragem! Vai deixar marca.

GOLOS — Afinal, não era o sistema maluco de Adriaanse que os conseguia. Este ano, de volta ao 4x3x3, o FC Porto só ficou em branco em jogos da Champions.

HÉLDER POSTIGA — A impossível ressurreição. Quem o viu nas três temporadas anteriores, custa-lhe a crer que seja o mesmo. Não é só ter começado a marcar golos, é tudo o resto: remata, corre, desmarca-se, tem alegria em jogar. Antes, não se mexia, não se dava a incómodos. Será para durar?

HELTON — A elegância na baliza e a rapidez de reflexos. Mas falta-lhe ainda uma coisa para me tranquilizar: aprender a sair às bolas altas como o Baía faz.

IBSON — Vale mais do que mostra. Valerá bem mais quando puser os olhos em Anderson e perceber que nenhuma jogada, por mais espectacular que seja, tem interesse se, no fim, a bola acaba nos pés dos adversários. Levante a cabeça e olhe para o jogo!

JESUALDO FERREIRA — Até que enfim, um treinador normal! Até que enfim, alguém para quem a inteligência supera a vaidade! Merece todo o crédito pela revolução tranquila que está a levar a cabo no FC Porto.

JORGE COSTA — Teve uma despedida despercebida e injusta mas há-de voltar, porque faz parte da vida deste clube.

JORGINHO — Um mistério eternamente por esclarecer: como é que era tão bom em Setúbal e é tão abúlico no Porto? Mas já teve oportunidades suficientes — só se pode queixar de si próprio.

JOÃO PAULO — Quem o comprou deveria ter alguma ideia: importa-se de dizer qual era?

KATSOURANIS — Joga pelos outros, mas sozinho causou-nos maiores danos do que todos os adversários e inimigos juntos. Quando for o jogo da Luz, é de esperar que Jesualdo deixe Quaresma no banco!

LISANDRO — Umas vezes bem, outras nem tanto. Ainda faz sentir saudades de Derlei.

LUCHO — Dois jogos de classe e dois golos portentosos — contra o Hamburgo e o Nacional. No resto, muito, muito aquém do que pode e sabe. Deve bem mais à equipa.

PAULO ASSUNÇÃO — Muito longe do nível da época passada e o meio-campo ressente-se disso.

PEDRO EMANUEL — Lesionado logo no início da época, vai ter um regresso difícil.

PEPE — Podem levar à conta de facciosismo clubístico mas é isto que eu penso e já vem de trás: é o melhor central do Mundo, na actualidade.

PAULO RIBEIRO - ?

PINTO DA COSTA — Enfrenta o seu ano de todos os perigos. Carolina e o défice são dois combates que não consentem subterfúgios.

RAUL MEIRELES — Claramente, o elemento mais fraco da equipa. Vagueia pelo campo, sem grande utilidade visível. Alguém estabeleceu que era um grande rematador de meia-distância: há seis meses que não acerta um remate na baliza.

REINALDO TELES — O homem que está lá sempre. For all seasons.

RICARDO COSTA — Sem lugar na equipa. De saída, normal, para Marselha.

RICARDO QUARESMA — Pegou no facho depois de Anderson cair em combate e levou a equipa atrás, mostrando que é o melhor futebolista português da actualidade e um dos melhores do Mundo nas suas várias posições. É um jogador absolutamente excepcional, como já o era no ano passado e há dois anos, e agora se percebe melhor o crime que foi deixá-lo de fora do Mundial-2006. Em lugar de explicações sem sentido, Scolari deveria pedir desculpa — a ele, aos portugueses e a todos os que gostam de futebol e não o puderam ver na Alemanha.

RUI BARROS — Missão cumprida. Mais uma. E a Supertaça no bolso.

SOKOTA — O mais azarado e o mais caro do clube.

TARIK SEKTOUI — Talvez um razoável suplente.

VIEIRINHA — A grande revelação da pré-época, a que Jesualdo não deu continuidade. E é pena, porque parece estar ali um grande jogador em potência.

VÍTOR BAÍA — Capitão do balneário, treinador adjunto oficioso, guarda-redes suplente, o que quiserem: Baía é a Torre dos Clérigos desta equipa, um jogador e um desportista como não há outro e já tenho saudade de o ver jogar.»

Miguel Sousa Tavares, ABola

OJogo.pt

«Ida e Volta
JORGE MAIA


Normalmente, o único motivo para se falar de ciclismo neste espaço seria um golo marcado por Quaresma na sequência de um pontapé-de-bicicleta. Hoje, contudo, vou abrir uma curta excepção para falar de ciclismo a sério, daquele que se faz em cima de bicicletas, a dar aos pedais montes acima e montes abaixo para ganhar metas volantes, camisolas às cores e o direito a posar ao lado de um par de moças giras com o boné do patrocinador. Talvez seja só eu, que sou picuinhas e fiquei irritado com mais um par de peúgas pelo Natal, mas faz-me alguma impressão que João Lagos, responsável pela organização da Volta a Portugal, seja também o principal responsável por uma das equipas que vai competir na prova e que, nem de propósito, também está ligada ao Benfica. Quer dizer, isto de o Benfica ter uma ligação directa aos organizadores de provas nas quais participa nem sequer é novidade, mas pensei que tinha acabado com a saída de Cunha Leal da Liga de Clubes e a morte por asfixia da antiga Comissão Disciplinar que quase, quase, levava o futebol português com ela. Felizmente, alguém se lembrou da manobra de Heimlich a tempo de os fazer saltar fora e deixar a Liga respirar de alívio. Mas, voltando às voltas do ciclismo, a ligação entre o Benfica e João Lagos, organizador da principal prova da modalidade em Portugal, parece-me um risco para a modalidade. Afinal, se Luís Filipe Vieira conseguiu ser o principal crítico da Liga que ele próprio desenhou e ajudou a eleger, imagine-se o que não dirá do ciclismo se as coisas não lhe correrem sobre rodas. Mas, como eu dizia no início, talvez seja só eu, que sou picuinhas e fiquei irritado com mais um par de peúgas pelo Natal. Brancas, valha-me o Cristo Redentor.»

Jorge Maia, OJogo.

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